Trabalhadores de limpeza e conservação querem prioridade na vacinação

06/04/2021



O presidente do Siemaco ABC, (Sindicato dos Empregados em Empresas de Prestação de Serviços em Asseio e Conservação, Limpeza Urbana e Manutenção de Áreas Verdes do ABCDMRR), Roberto Alves da Silva, diz que a entidade tenta conseguir prioridade na vacinação contra a covid-19, da mesma forma como já estão sendo vacinados os profissionais de saúde, de segurança pública e os maiores de 47 anos que trabalham na Educação. A categoria é composta por aproximadamente 22 mil trabalhadores em todo o ABC, que atuam em prefeituras na coleta de lixo, varrição e capinação, em condomínios, em zeladoria e limpeza, em hospitais e clínicas.

 

Segundo Alves boa parte dos trabalhadores, apesar da necessidade de limpeza ter aumentado, acabaram perdendo seus empregos. “Infelizmente nossos trabalhadores não fugiram das estatísticas de desemprego por conta da pandemia, principalmente os que pertencem ao grupo do asseio e conservação. Destes, cerca de 20% foram desempregados, pois atuavam em shopping centers, comércio e escolas. Os menos afetados foram os trabalhadores do grupo da limpeza urbana e aqueles que atuam em hospitais”, explica Silva.

 

A rotina dos trabalhadores também mudou, o uso de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), que já era obrigatório foi reforçado e ganhou outros itens, como a máscara. “Intensificamos nossa fiscalização aos ambientes de trabalho, visando conferir se todos estavam utilizando os EPIs e se estavam recebendo orientações sobre os cuidados necessários. Infelizmente, percebemos que muitas empresas se esquivaram da responsabilidade de proteger os próprios funcionários, foi aí que tivemos a iniciativa de criar uma campanha permanente de doação de kits de proteção, com máscaras e álcool em gel”.

 

Apesar da situação de exposição e de risco dos profissionais da limpeza, o Siemaco não tem um levantamento de infectados ou mortos pela covid-19 na categoria. “Tentamos algumas vezes fazer esse levantamento, mas a maioria das empresas não informa o número de casos”, lamenta o sindicalista. “O maior problema da categoria é a visibilidade dos profissionais. Infelizmente, nossos trabalhadores ainda sofrem com a discriminação. Embora sejam essenciais para toda a sociedade, ainda são alvos do preconceito, da discriminação e da indiferença. Para se ter uma ideia, embora todas as nossas tentativas de conscientização social, a população em suas casas, segue descartando lixo contaminado sem qualquer cuidado, sem qualquer identificação. Isso, por si só, já mostra a falta de empatia com os trabalhadores da limpeza”.

 

“A grande maioria das pessoas reconhece nosso trabalho, mas ainda tem gente que nos ignora e não liga se coloca nossa vida em risco”, diz Diogo Ferreira Lagares que trabalha como coletor de lixo em São Bernardo. Ele pilota uma motocicleta e recolhe os dejetos em áreas de difícil acesso, onde o caminhão não chega. “A gente já tinha medo de se contaminar, porque ainda tem gente que joga até seringa no lixo comum, mas os EPIs foram reforçados temos treinamento e o sindicato acompanha tudo”, diz o coletor que há 11 anos trabalha para deixar a cidade limpa.

 

Na pandemia muita coisa mudou para os profissionais, o uso das máscaras se tornou obrigatório e o cuidado maior para não levar nada de ruim para casa também. “O uniforme fica na empresa, mesmo assim quando chego em casa primeiro separo a minha roupa e vou para o banho. Para não trazer nada para casa”, disse Lagares, que mora com a esposa.

 

Elemildes Roseno Santos Costa, que trabalha na limpeza de um condomínio em Diadema, disse que, apesar de áreas comuns estarem fechadas, como churrasqueira e salão de festas, o trabalho ficou mais intenso. “A gente passa o dia higienizando corrimão e elevador, os cuidados para a retirada do lixo também aumentaram”, diz a profissional que há 5 anos trabalha na área e que, apesar do receio prefere estar no trabalho. “Eu me cuido, uso álcool em gel o tempo todo, como moro perto e não pego ônibus, é mais tranquilo. Mesmo assim quando chego em casa toda a roupa vai para o cesto e a prioridade é tomar banho antes de qualquer coisa”, comenta Elemildes que mora com o esposo.

 

A preocupação de Patrícia Silva Pereira, que trabalha na limpeza no condomínio é com as duas filhas. Ela conta que o trabalho ficou mais difícil e que alguns poucos moradores não colaboram com o trabalho. “Tem gente que acha que paga condomínio e a gente tem que limpar mesmo. Deixam os sapatos do lado de fora, e a gente tem que mexer para limpar o chão. Por isso eu tomo cuidado, troco de máscara, se não tem eu lavo e uso ainda molhada mesmo, tudo para proteger minhas filhas. Quando chego em casa a pequena de 4 anos quer me abraçar, eu não deixo, primeiro é tirar a roupa que vem da rua, banho e só depois abraçar”, conta. Patrícia precisa enfrentar o transporte público para ir ao trabalho todo dia, mas diz que o horário ajuda. “Como eu faço das 9h às 17hs, quando eu pego o ônibus não está muito lotado, mas eu tento ficar distante das pessoas pois tem gente que usa máscara com o nariz de fora. Por isso eu acho que nós devíamos estar como prioridade na vacinação”, comenta.

 

A questão da vacinação para esse público já foi até judicializada pelo Siemaco. “Além de constantes diálogos com o Poder Público, temos ações protocolizadas na justiça com pedido de liminar. Acredito que tenhamos notícias ainda nessa semana”, disse o presidente do Siemaco ABC.

 

 

George Garcia há 14 horas  Saúde